skip to Main Content

Jornalista australiana desvenda o submundo de Bali – Curumim, Rodrigo Goularte

SURFING BOARDSJornalista australiana desvenda o submundo de Bali, na Indonésia, em dois livros que trazem entrevistas com brasileiros executados por pelotões de fuzilamento
Conheci o trabalho da jornalista australiana Kathryn Bonella completamente por acaso. Logo quando cheguei à Melbourne, capital cultural da Austrália e terra natal da autora, em julho de 2015, fui ao cinema assistir “Amy”, o documentário sobre a cantora Amy Winehouse. Enquanto esperava a sessão começar, fui fazer hora em uma livraria e me deparei com o livro “Snowing in Bali” (“Nevando em Bali”, em tradução literal), o terceiro livro de sua carreira. Demorei algumas semanas para terminar a leitura, que revela em detalhes o lado negro da famosa cidade da Indonésia, bem diferente do que se vê nos cartões-postais.

A narrativa envolvente é capaz de prender a atenção de qualquer leitor, mas em especial se este for brasileiro e carioca (ou simplesmente simpatizar com o país e a cidade). No alto escalão do narcotráfico local, muitos ex-traficantes entrevistados por ela são naturais da Cidade Maravilhosa. Quando terminei o livro, deixei uma mensagem no site oficial solicitando uma entrevista, me identificando como carioca e jornalista, explicando que estes eram os motivos principais do meu interesse. Alguns dias depois, veio a resposta. Muito simpática, Kathryn topou conversar e sugeriu que eu lesse “Hotel Kerobokan”, seu segundo livro, que é uma espécie de “parte 1” do livro que já havia lido.

Chamar a penitenciária Kerobokan, localizada próxima a Bali, também na Indonésia, é ao mesmo tempo um deboche e um apelido apropriado. Apesar de sua estrutura precária, com banheiros eternamente entupidos e presos se alimentando de animais exóticos como cobras e ratos, a prisão de segurança máxima oferece dezenas de regalias ao detentos mais afortunados. Com taxas extra-oficiais, que são pagas aos guardas corruptos que por lá trabalharam, é possível comprar drogas de todos os tipos, solicitar os serviços de uma prostituta (que atende a domicílio) e até mesmo passar um dia fora da cadeia, surfando as famosas ondas de Bali ou comendo em um dos restaurantes locais.

No Brasil, a prisão de segurança máxima ficou famosa em 2015, por que lá estavam detidos os dois brasileiros que foram condenados à pena de morte e executados por um pelotão de fuzilamento, ambos entrevistados pela autora enquanto cumpriam pena.

Como ela não estava em Melbourne e eu ainda estava lendo o segundo livro, adiamos nossa entrevista para o final do ano, para que eu conseguisse terminar a leitura e para que nós pudéssemos nos conhecer pessoalmente, fato que torna qualquer entrevista mais interessante. Muitos e-mails e mensagens de texto depois, finalmente nos encontramos no dia 30 de dezembro, quando almoçamos e conversamos sobre o processo de produção dos dois livros e os paralelos com a criminalidade existente no Brasil.

Antes de entrarmos nas perguntas abaixo, Kathryn adorou ficar sabendo de histórias locais, como a vez que o cantor Michael Jackson foi autorizado pelo Comando Vermelho a gravar no Morro Dona Marta (descrito no livro “Abusado”) e do traficante Escadinha, que usou um helicóptero para fugir do presídio da Ilha Grande, em 1985.

Universocals: Vamos começar com um pouco de história. Como uma jornalista da Austrália foi para na Indonésia, entrevistando criminosos das mais diferentes partes do mundo?

Kathryn: A primeira vez que estive em Bali foi no ano de 2003, para fazer uma reportagem sobre um atentado terrorista que havia ocorrido naquele mesmo ano, levando sobreviventes do ataque ao local aonde ele aconteceu, seis meses depois. Um ano depois, em outubro de 2004, quando eu estava trabalhando para o “60 minutes” (famoso programa jornalístico da TV australiana) fiz duas reportagens sobre a australiana Schapelle Corby, que foi presa com 4.2 quilos de maconha no aeroporto de Denpasar, o principal aeroporto de Bali.

O caso ganhou fama e se tornou o assunto mais popular na Austrália naquela época por que Schapelle afirmava para quem quisesse ouvir que ela não era traficante e que as drogas haviam sido plantadas na capa de sua prancha de body board. Ela foi condenada à 20 anos de prisão e o país se dividiu: seria ela culpada ou inocente? Sua família entrou em contato comigo e perguntou se eu queria escrever uma biografia dela, proposta que aceitei imediatamente, pois tratava-se de uma grande oportunidade para qualquer jornalista.

Foi assim que tudo começou. Embarquei para Bali, onde fiquei durante onze meses no total, desde o começo do processo até o lançamento do livro. Eu visitei a cadeia todos os dias, durante um período de dois meses e meio, em dois turnos (pela manhã e à tarde) para fazer as entrevistas com Schapelle que serviram de base para o livro. Eram três horas pela manhã e três horas à tarde, utilizando somente um pequeno gravador digital escondido na minha bolsa. Ninguém fazia ideia do que estávamos fazendo na época, achavam que nós éramos primas.

À medida que os capítulos iam ficando prontos, eu levava para ela ler e revisar, para me certificar que todas as informações estavam corretas. Durante todo este longo processo, comecei a conhecer outros detentos, alguns de origem brasileira. Muitos eram turistas que foram presos com pequenas quantidades, como duas pílulas de ecstasy. Até hoje, a grande maioria dos ocidentais que cumprem pena por lá estão detidos por conta de envolvimento com drogas.

O livro saiu, foi direto para o primeiro lugar nas listas dos mais vendidos na Austrália, e os editores ficaram felizes. Comecei a contar para eles as outras que havia visto lá dentro como o tráfico de drogas, casais fazendo sexo abertamente na sala de visita e guardas oferecendo passeios por outras partes da cadeia em troca de dinheiro. Então o “Hotel K” foi o próximo livro que surgiu de maneira espontânea, por que eu já tinha algumas histórias ótimas.

Passei mais dois anos pesquisando e escrevendo sobre os assuntos que aparecem no livro, e depois disso, conheci muitos brasileiros, e alguns deles já estavam em liberdade após terem cumprido pena no “Hotel K”. De repente, percebi que existia uma parte de Bali que era bem parecida com o que acontecia no interior da cadeia. Um submundo marcado por tráfico de drogas e vidas luxuosas, tudo isso acontecendo em um cenário de praias paradisíacas.

“Snowing in Bali” retrata uma vida dos sonhos para quem é traficante: fazer negócios em hotéis de luxo, surfar todos os dias, uma demanda constante de compradores de todos os portes, vilarejos lindos onde eles podem promover orgias, garotas bonitas surgindo constantemente. Bali é um paraíso das férias: só de turistas australianos, são mais de um milhão que visitam a cidade todos os anos.

Universocals: Normalmente, criminosos condenados não confiam em muitas pessoas. Apesar disso, existem dezenas de relatos íntimos em “Hotel K”. Como foi o processo de estabelecer laços de confiança com essas pessoas?

Kathryn: Desde o começo, fui sempre clara e direta com todos eles. No primeiro encontro, explicava que estava fazendo um livro sobre a prisão e perguntava sobre histórias pessoais. Eu acho que pessoas que estão presas na Indonésia há muitos anos, na verdade ficam felizes de receber uma visita. Eu levava comida e contato com o mundo exterior. A penitenciária funciona como uma sociedade sombria formada por gangsters, pedófilos, assassinos, estupradores e alguém que roubou uma maçã para alimentar um filho com fome, traficantes de drogas ou alguém que foi preso usando uma pílula de ecstasy todos juntos, confinados em um mesmo ambiente. Não há segregação.

Traficantes que vendem drogas apenas para pagar suas férias ou estadia permanente no paraíso que é Bali ficam absolutamente chocados com as outras pessoas ao seu redor. Então, ter alguém que entre na prisão, vindo do mundo exterior normal, alguém que eles se identifiquem, já que muitos deles frequentam boas escolas e universidades, especialmente os brasileiros, fluentes em várias línguas, é algo bom para eles.

Alguns demoraram um pouco mais para confiar em mim, já que a maioria deles precisa ser certificar que você não é um policial à paisana, já que em Bali há muitos agentes da polícia federal australiana que trabalham dessa forma. Para mim, este processo foi mais fácil por que todos os detentos sabiam do livro da Schapelle, e sabiam que eu era a autora. E quando eu fiz “Snowing in Bali”, muitos deles conheciam e já haviam lido “Hotel K”, o que me deu credibilidade e facilidade de chegar até os entrevistados.

Universocals: No livro “Hotel K”, você descreve um cenário marcado por sexo, drogas e violência, tudo isso acontecendo em uma estrutura precária e imunda. O quanto disso tudo você testemunhou e o quanto você soube através das entrevistas?

Kathryn: Quando eu estava escrevendo o livro, eu ganhei acesso aos interiores da penitenciária. Atualmente, ela se tornou muito mais famosa, o que tornou o acesso muito mais restrito. Enquanto estive lá, eu vi pessoas fazendo sexo, venda de drogas acontecendo livremente, pessoas injetando heroína em suas veias com seringas, celas super lotadas. Ou seja, eu testemunhei muita coisa, mas é claro que boa parte do conteúdo também veio das histórias contadas pelos detentos.

Para confirmá-las, eu fui ao arquivo do jornal local, que é estruturado de maneira primitiva, sem o uso de computadores. Meu motorista de táxi virou meu intérprete, e ele passava horas comigo traduzindo as matérias que eu achava sobre a prisão. Revisei centenas de artigos em salas infestadas por ratos, e todas as histórias contadas se confirmaram nas páginas desses jornais. Como jornalista, meu objetivo é sempre apresentar histórias verdadeiras, mas que sejam também interessantes.

Universocals: Os guardas da prisão são descritos nos livros como sendo altamente corruptos. Como foi lidar como eles? Foi perigoso?

Kathryn: Quando eu frequentei a cadeia, eles não sabiam que eu estava fazendo um livro que iria expor os segredos daquela estrutura em termos de corrupção, violência e outros aspectos. Tudo que eles sabiam era que eu estava indo lá diariamente, duas vezes por dia. Desde que eu pagasse uma propina de 50 centavos australianos (algo em torno de 20 centavos de real), que não é muito, mas para eles era o suficiente, estava tudo bem. Com o tempo, eles começaram pedir coisas como cópias da Playboy australiana, já que a pornografia é algo ilegal na Indonésia, que é um país muçulmano. Mas não foi perigoso.

Universocals: Você entrevistou muitos brasileiros nos dois livros. Como era sua relação como eles?

Kathryn: Brasileiros são como os australianos em muitos sentidos: ambos possuem um senso de humor parecido, amor pela prática de esportes, e no caso de Bali, o surfe, mais especificamente. Todos os brasileiros que conheci falavam várias línguas e eram pessoas perseverantes, que largaram tudo no Brasil para tentar ter uma nova vida em Bali. Eles são pessoas cheias de energia e que amam viajar, e eu acho que é isso que torna o “Snowing in Bali” interessante. Por que não são os peruanos ou colombianos, por exemplo, e sim os brasileiros que traficam cocaína para a Indonésia? Por que eles não viajam com frequência e se você chegar sozinho no aeroporto de lá com um passaporte peruano ou colombiano isso com certeza levantará suspeitas instantâneas.

Mas como existem dezenas de brasileiros que viajam à Bali todos os anos para passar férias de verdade, para realmente apenas surfar, turistas reais, fica mais fácil para estes traficantes se misturarem à multidão. Brasileiro tem um amor verdadeiro pela vida. Eu não conhecia muitos brasileiros antes de escrever os livros, mas agora eu amo o povo brasileiro.

Universocals: Quando você terminou de escrever “Hotel K”, como surgiu a ideia para “Snowing in Bali”? A sequência surgiu de forma natural?

Kathryn: Eu descobri que o que estava acontecendo dentro da cadeia, o submundo da corrupção entre a polícia e o tráfico de drogas, também estava acontecendo do lado de fora, no paraíso, ao lado das famílias aproveitando seus momentos de férias. Enquanto as pessoas comuns estavam bebendo no bar da piscina, acordos milionários de compras e vendas de drogas estavam acontecendo naquele mesmo hotel. Quanto mais eu ouvia essas histórias sobre o que estava acontecendo do lado de fora da cadeia, mais eu percebia que este mundo era muito maior do que eu imaginava.

Ninguém havia contado ainda a história sobre como esses caras começaram a traficar drogas para dentro da Indonésia, escondidas em capas de pranchas de surfe ou de equipamentos de asa-delta. Isso nunca havia sido feito antes, nem mostrado dessa maneira. Quando os brasileiros foram executados, eu recebi dezenas de mensagens de jornalistas brasileiros, afirmando que o meu livro havia sido tornado uma referência, já que não há muita coisa publicada sobre o assunto.

Universocals: Entre os dois livros, você tem um preferido?

Kathryn: Assim como uma mãe que tem mais de um filho, eu também nunca poderia escolher entre um ou outro, qual deles é o meu preferido. No entanto, o processo de produção de “Snowing in Bali” foi muito mais agradável por que escrevi o livro em quartos de hoteis e não precisei frequentar uma penitenciária com um gravador escondido na bolsa.

Universocals: Mesmo com a pena de morte, muitas pessoas ainda continuam tentando entrar na Indonésia com drogas. Qual é a sua opinião em relação a legalização das drogas?

Kathryn: Com certeza, a pena de morte assustou os brasileiros e pessoas de outras partes do mundo que traficam drogas para Bali. O tráfico parou temporariamente e não há dúvidas que as pessoas envolvidas ficaram assustadas. Por outro lado, uma “mula”, alguém disposto a fazer este tipo de trabalho, irá receber quantias cada vez maiores de dinheiro, já que agora não trata-se apenas de uma placa de advertência no aeroporto, trata-se de um fato.

Muitas pessoas, como Marco e Rodrigo, os dois brasileiros, já foram executadas. Mas se isso vai acabar com o tráfico de drogas? Com certeza não! Quando você paga cinco mil dólares australianos no Brasil por um quilo de cocaína e pode vender em Bali por AUD$ 200 mil, a margem de lucro absurda sempre vai fazer com que alguém se interesse pelo serviço. Caso a pessoa chegue até a Austrália, onde as fronteiras são muito rígidas, este valor pode chegar até AUD$ 350 mil.

Por que se você passar com carga, é como se você tivesse ganhado na loteria. Em um único voo, você ganha uma quantidade enorme de dinheiro. Será que agora existirão menos pessoas dispostas a correr este risco já que pessoas foram executadas? Claro. Mas uma transação que envolva tanto lucro como esta nunca vai deixar de existir completamente. Em lugares festivos como Bali, sempre haverá demanda para drogas como cocaína e ecstasy.

Universocals: Depois de conhecer o submundo de Bali, você ainda é capaz de voltar à cidade e apenas relaxar em um período de férias?

Kathryn: É claro que eu posso voltar e aproveitar, mas eu sempre estarei pensando em tudo que acontece por lá. Eu não tenho mais aquela visão simples e superficial, que você normalmente tem ao visitar um lugar em um pacote de férias. Bali é um lugar lindo, mas o que torna tão interessante é a combinação desta beleza com este complexo submundo.

Eu tenho que tomar cuidado para não mostrar este outro lado de uma maneira que isto pareça uma ótima maneira de se viver a vida. Para os personagens dos meus livros, a vida pode ter sido boa por um curto período de tempo, mas o final é sempre trágico resultando em prisão, morte ou períodos no hospital. Casos de aposentadoria são raríssimos.

Universocals: Quais são seus próximos projetos?

Kathryn: Estou pesquisando para um novo livro, mas ainda não posso revelar detalhes. Só posso adiantar que será do mesmo gênero. Enquanto eu achar o assunto excitante e fascinante, eu trarei à tona para os meus leitores. Isto é algo eu amo fazer.

“Snowing in Bali” está sendo traduzido para o português no momento e será lançado em 2016, sem data e mês definido ainda.

Para saber mais sobre a autora, acesse o site oficial dela clicando aqui.

Para saber mais sobre os livros:
“Hotel K”
“Snowing in Bali”

To see original story: http://universocals.blogspot.com.au/2016/01/jornalista-australiana-desvenda-o.html

Back To Top